Poetinha? Não, nem isso. O escritorzinho não quer escrever nada. Sua vida não deve ser pública. Deve apenas criar alguns personagens. Tecer um romance em que esses personagens interajam, um conto em que eles protagonizam, uma novela em que eles sejam coadjuvantes. Inventar e criar. Mimetizar. E esses personagens no máximo podem apresentar alguns traços autobiográficos. Só. E traços ainda diluídos em um contexto que não deve remeter diretamente ao autor. Não é jornalista, então não escreve uma biografia, porra. Escritor, narrador, autor, poeta, eu lírico. Merda ao próprio! O amor parece ser um prato cheio para dramalhões; renderia excelentes romances. Mas não venha se declarar através da poesia. “Poesia não é falar de amor, usar rimas, escrever sobre a própria vida...” Que também se foda a tal poesia! Até ela eu abandonei. Nem a ela me recorro. Nem para isso toda essa dor deve servir. Dor, lamentação. Lamentos silenciosos. Choro calado. Isolar-se na própria – porém inapropriada – companhia de um lamentador. Solitude... Isola-te e vá choramingar o que já perdeu. Só não venha com um poeminha magoado. Não tente nada com a poesia. Ela nunca foi de ninguém. E não é só porque sofres que ela vai ter pena de ti. É bom te acostumar. Sofra, mas não vai foder com a poesia. Ela não teve culpa de nada. Pode sofrer, escritorzinho de merda. Escreve aqui um pouco mais. Derrama tuas lágrimas sobre o papel. Escreva com a letra torta, ilegível – isso pode trazer maior drama ao teu sofrimento. Chora enquanto escreves. Não para nem para enxugar as próprias lágrimas. Borra o papel e a letra já ilegível. Mas não venha se lamentar através da poesia. Derrama seu pranto sobre o papel. Derrama teu sangue com todo seu sofrimento. Com toda a sua amargura. Corte-se e multiplique-se sobre a folha branca. Pobre escritorzinho... Nem sabe que hoje em dia se escreve no computador mesmo. Ninguém utiliza mais papel e tinta para essas anotações. Derrama tuas lágrimas sobre o teclado. Dedique jorros de sangue sobre a tela do computador. Mostre o quanto sofres por esse amor. Madrugadas perdidas. Tantos dias quentes. Um inferno constante. Mas venha derramar teu sangue sobre o que escreves. Colora seu poeminha, sua poesia, seu pequeno livro que sonhas ser um dia lido. Mas quem vai ler essa merda? Não sejas tolo, ninguém vai ler essa merda. E é por isso que continua com essa linguagem chula? Não... Devo requintá-la. Algumas metáforas, metonímias, oximoros, paradoxos, prosopopeias... Tudo para facilitar a Teoria da Literatura. A mãe de todos nós, os flagelados. Seu leproso! Cuidado quando escreves e digitas. Não me dediques teus restos corporais por essas linhas. Seus farelos de escritorzinho ou poetinha. Segure o teu dedo. Cuidado para não cortar fundo demais os pulsos. Quero ouvir tuas últimas pulsações cardíacas. Os últimos lamentos que não conseguiu me dedicar. E esse rancor todo contra si mesmo? De nada serve. Vê se aprende. Desafogue a ti mesmo disso tudo. Mas não venha me dedicar palavras em algum poeminha. Não quero nada. De nada preciso. Nem de ti, nem de tuas lágrimas. Talvez de teu sangue... Ele pelo menos coloriria essa página branca. Isso sim seria poesia. Tua melhor poesia.
domingo, 10 de janeiro de 2010
Assinar:
Postar comentários (Atom)
Nenhum comentário:
Postar um comentário