segunda-feira, 1 de agosto de 2011
quarta-feira, 20 de abril de 2011
flower gal
hoje me deparei com uma cena meio blue. uma mulher, nos seus 50 anos, provavelmente mãe, de estatura pequena, com os cabelos despenteados, desarrumados, com uma cesta de rosas vermelhas. ela as vendia. passava em meio a uma multidão, a qual eu também fazia parte. véspera de feriado. semana santa. noite já, e todo mundo preocupado só em chegar em casa depois do trabalho, depois de um dia inteiro. ela ainda trabalhava. flower girl. observava todos na multidão. encarava alguns, outros apenas de relance. procurava algo. mas ela não oferecia suas flores para pessoas solitárias, como eu. ela buscava algo a mais. buscava casais. o cavalherismo nos namorados que encontrava. buscava a espontaneidade, pura como o amor. talvez ali não havia amor. só solidão, carência, contratos, acomodações. eu, em minha mais companheira solidão, senti-me ainda mais só, mas cheio de amor. aquelas rosas me encheram de amor. as flores que ela não me ofereceu foram dadas a mim pelo tempo, por aquele momento. eu, em retribuição, queria comprar uma de suas rosas e presenteá-la, aparentemente uma frágil mulher, porém muito forte. queria dá-la um presente seu, o mesmo que ela oferece aos outros. e todos os dias. talvez alguém compre. um jovem casal, um romântico incurável qualquer. mas os que não compram suas rosas são presenteados mesmo assim com aquela pureza, com seu amor. sua força e beleza. não é qualquer pessoa que pode vender rosas. nem todos conseguem carregar uma cesta de flores. não sei se eu conseguiria. ela se afastava. mas ninguém comprava suas flores. ninguém ali amava. ninguém ali era puro, só ela. that flower girl. ainda era noite. e não havia passado ainda um minuto disso tudo. mas ela já havia desaparecido na escuridão. os postes de luz já não a iluminavam às nossas vistas mais. só meu olhar a seguia. só. e as palavras perdiam seus sentidos, seus significados. um signo puro, sem significante. só a imagem, só o momento. fugaz também. sem trilha sonora. não era necessária. nem falas. nem iluminação. só isso. só ela. só a solidão. só. (and words are useless. especially sentences. they don't stand for anything. how could them explain how I feel?)
sábado, 19 de março de 2011
sexta-feira, 18 de março de 2011
domingo, 10 de janeiro de 2010
[Sem título, sem numeração]
Poetinha? Não, nem isso. O escritorzinho não quer escrever nada. Sua vida não deve ser pública. Deve apenas criar alguns personagens. Tecer um romance em que esses personagens interajam, um conto em que eles protagonizam, uma novela em que eles sejam coadjuvantes. Inventar e criar. Mimetizar. E esses personagens no máximo podem apresentar alguns traços autobiográficos. Só. E traços ainda diluídos em um contexto que não deve remeter diretamente ao autor. Não é jornalista, então não escreve uma biografia, porra. Escritor, narrador, autor, poeta, eu lírico. Merda ao próprio! O amor parece ser um prato cheio para dramalhões; renderia excelentes romances. Mas não venha se declarar através da poesia. “Poesia não é falar de amor, usar rimas, escrever sobre a própria vida...” Que também se foda a tal poesia! Até ela eu abandonei. Nem a ela me recorro. Nem para isso toda essa dor deve servir. Dor, lamentação. Lamentos silenciosos. Choro calado. Isolar-se na própria – porém inapropriada – companhia de um lamentador. Solitude... Isola-te e vá choramingar o que já perdeu. Só não venha com um poeminha magoado. Não tente nada com a poesia. Ela nunca foi de ninguém. E não é só porque sofres que ela vai ter pena de ti. É bom te acostumar. Sofra, mas não vai foder com a poesia. Ela não teve culpa de nada. Pode sofrer, escritorzinho de merda. Escreve aqui um pouco mais. Derrama tuas lágrimas sobre o papel. Escreva com a letra torta, ilegível – isso pode trazer maior drama ao teu sofrimento. Chora enquanto escreves. Não para nem para enxugar as próprias lágrimas. Borra o papel e a letra já ilegível. Mas não venha se lamentar através da poesia. Derrama seu pranto sobre o papel. Derrama teu sangue com todo seu sofrimento. Com toda a sua amargura. Corte-se e multiplique-se sobre a folha branca. Pobre escritorzinho... Nem sabe que hoje em dia se escreve no computador mesmo. Ninguém utiliza mais papel e tinta para essas anotações. Derrama tuas lágrimas sobre o teclado. Dedique jorros de sangue sobre a tela do computador. Mostre o quanto sofres por esse amor. Madrugadas perdidas. Tantos dias quentes. Um inferno constante. Mas venha derramar teu sangue sobre o que escreves. Colora seu poeminha, sua poesia, seu pequeno livro que sonhas ser um dia lido. Mas quem vai ler essa merda? Não sejas tolo, ninguém vai ler essa merda. E é por isso que continua com essa linguagem chula? Não... Devo requintá-la. Algumas metáforas, metonímias, oximoros, paradoxos, prosopopeias... Tudo para facilitar a Teoria da Literatura. A mãe de todos nós, os flagelados. Seu leproso! Cuidado quando escreves e digitas. Não me dediques teus restos corporais por essas linhas. Seus farelos de escritorzinho ou poetinha. Segure o teu dedo. Cuidado para não cortar fundo demais os pulsos. Quero ouvir tuas últimas pulsações cardíacas. Os últimos lamentos que não conseguiu me dedicar. E esse rancor todo contra si mesmo? De nada serve. Vê se aprende. Desafogue a ti mesmo disso tudo. Mas não venha me dedicar palavras em algum poeminha. Não quero nada. De nada preciso. Nem de ti, nem de tuas lágrimas. Talvez de teu sangue... Ele pelo menos coloriria essa página branca. Isso sim seria poesia. Tua melhor poesia.
sexta-feira, 18 de dezembro de 2009
Formigas em vermelhas pitangas
que se acumulavam dentro do pote. Somavam-se em algumas. Doceiras. Madeira-marrom-caramelo. Não sei quando chegaram ali. Mas encontraram o doce antes de mim. (elas farejam açúcar? Acredito que sim. São dotadas de articulações cujas funções e fundamentos desconheço. Suas antenas devem servir para captar vibrações transmitidas por outras formigas que encontraram primeiro o alimento) Não quero dizer que elas farejam. Obviamente não é isso. Sei que elas saem por aí em busca de algo. Nem que saiam por aí experimentando todo tipo de coisa até acharem algo palatável de que possam se alimentar. Mas na verdade o que quero dizer é que elas sabem. Sim, elas devem saber.
Umas 12. Talvez mais. (e elas revezam entre si para todas poderem comer? Saem correndo para avisar seus familiares sobre a nova descoberta? Saem realmente para avisar antes de desfrutarem o máximo que podem sozinhas?) E elas se acumulavam por todo o pote de vidro. Cristalino. Pequeno. Transparente. E sua transparência era violentada com o escarlate interior. Brasas ainda em chamas, ígneas.
fim de inverno primavera chega logo já já é setembro e flores a frutas dão lugar frutas crescem amadurecem vermelheiam-se com o sol e refrescam-se com as chuvas adocicam-se com a alvorada-crepúsculo e corrompem-se com os vermes das moscas que nelas posam depositando ovos larvas e lagartas bichos que comem a polpa e nos deixam apenas o caroço amolecem a carne até então firme interior das frutas e sugam o doce licor delas embriagam-se com o doce néctar e destrincham a musculosa fibra mas por fora tudo continua perfeito por fora tudo continua belo por fora tudo continua intocável imaculável impenetrável inviolável por fora o dentro está perfeito por fora o dentro está delicioso por fora o dentro está doce firme polpa suculenta vermelha impecável mas por dentro tudo está corrompido tudo está podre por dentro tudo está estragado por dentro tudo está comprometido e corrompido por dentro se conhece o exterior que engana por dentro se corrompe e se destrói mas por fora tudo está perfeito tudo está muito lindo por fora tudo é muito atraente tudo está convidativo o vermelho escarlate ígneo das pitangas deste fim de inverno quase primavera de calor veranil
Pitangas colhidas no inverno. Poucas na verdade. Talvez temporonas.
de brancas pétalas de cujos miolos com pólen amarelo que flutua pelo ar e voa com o vento talvez a semear fertilizar e mais flores a brotar mais borboletas a lhes visitar de alvura matinal matrimonial nívea e nubente as flores virgens se entregam ao prazer sexo libido fertilização maculação coito vegetal luxúria contextual masturbação botânica e fertilização natural os frutos delas crescerão nascerão desse coito outonal invernal em vermelho escarlate ensangüentada libido do calor quase veranil
Escarlates pitangas. De inverno.
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