que se acumulavam dentro do pote. Somavam-se em algumas. Doceiras. Madeira-marrom-caramelo. Não sei quando chegaram ali. Mas encontraram o doce antes de mim. (elas farejam açúcar? Acredito que sim. São dotadas de articulações cujas funções e fundamentos desconheço. Suas antenas devem servir para captar vibrações transmitidas por outras formigas que encontraram primeiro o alimento) Não quero dizer que elas farejam. Obviamente não é isso. Sei que elas saem por aí em busca de algo. Nem que saiam por aí experimentando todo tipo de coisa até acharem algo palatável de que possam se alimentar. Mas na verdade o que quero dizer é que elas sabem. Sim, elas devem saber.
Umas 12. Talvez mais. (e elas revezam entre si para todas poderem comer? Saem correndo para avisar seus familiares sobre a nova descoberta? Saem realmente para avisar antes de desfrutarem o máximo que podem sozinhas?) E elas se acumulavam por todo o pote de vidro. Cristalino. Pequeno. Transparente. E sua transparência era violentada com o escarlate interior. Brasas ainda em chamas, ígneas.
fim de inverno primavera chega logo já já é setembro e flores a frutas dão lugar frutas crescem amadurecem vermelheiam-se com o sol e refrescam-se com as chuvas adocicam-se com a alvorada-crepúsculo e corrompem-se com os vermes das moscas que nelas posam depositando ovos larvas e lagartas bichos que comem a polpa e nos deixam apenas o caroço amolecem a carne até então firme interior das frutas e sugam o doce licor delas embriagam-se com o doce néctar e destrincham a musculosa fibra mas por fora tudo continua perfeito por fora tudo continua belo por fora tudo continua intocável imaculável impenetrável inviolável por fora o dentro está perfeito por fora o dentro está delicioso por fora o dentro está doce firme polpa suculenta vermelha impecável mas por dentro tudo está corrompido tudo está podre por dentro tudo está estragado por dentro tudo está comprometido e corrompido por dentro se conhece o exterior que engana por dentro se corrompe e se destrói mas por fora tudo está perfeito tudo está muito lindo por fora tudo é muito atraente tudo está convidativo o vermelho escarlate ígneo das pitangas deste fim de inverno quase primavera de calor veranil
Pitangas colhidas no inverno. Poucas na verdade. Talvez temporonas.
de brancas pétalas de cujos miolos com pólen amarelo que flutua pelo ar e voa com o vento talvez a semear fertilizar e mais flores a brotar mais borboletas a lhes visitar de alvura matinal matrimonial nívea e nubente as flores virgens se entregam ao prazer sexo libido fertilização maculação coito vegetal luxúria contextual masturbação botânica e fertilização natural os frutos delas crescerão nascerão desse coito outonal invernal em vermelho escarlate ensangüentada libido do calor quase veranil
Escarlates pitangas. De inverno.
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